Ficções

Textos de ficção sem a pretensão de serem literários, mas com o desejo pouco secreto de que alguém assim os considere.

Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Estou...

...além.

Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

Repórter Z

Ainda está em construção, mas já dá para ver como ficará o aspecto final. Refiro-me ao meu novo blogue, uma montra do meu trabalho jornalístico. Devo agradecer à Raquel pelo trabalho que permitiu que as digitalizações estejam legíveis e agradáveis à vista.

Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Insónia

Ele estava deitado, mas não dormia. Os olhos cerrados não interrompiam a vigília. Os cobertores até a cabeça lhe tapavam, mas o silêncio e a escuridão, quais algozes, não o largavam com os seus ataques sonoros e visuais. Do silêncio emergia, com uma regularidade cada vez menos espaçada, uma espécie de grito agudo. O som feria-lhe os tímpanos, antes de lhe sair dos ouvidos e desaparecer na atmosfera fumarenta do quarto. E aquela imensa luz, clara e brilhante, que o cegava, mesmo se os olhos permaneciam fechados... Era um clarão que também se evaporava, emigrando dele para o escuro do quarto. De tempos a tempos, grito e clarão surgiam juntos. Com o passar das horas iam amainando. O grito do silêncio era interrompido pelo ruído dos carros madrugadores. O clarão de escuro desvanecia-se com as frinchas da manhã a nascer e a penetrar pela persiana. Ele podia, enfim, descansar: chegava a hora de levantar-se para ir trabalhar.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Dignidade

Como estará o meu pequenino? Esta manhã tinha tão má cara... O rosto muito amarelado e a febre sempre alta. Espero que a dona Aurora trate bem dele. Ninguém tem tido razões de queixa da senhora. A casa dela não é nenhuma especialidade de conforto, mas ela gosta de crianças. Há até quem lá deixe os filhos em regime de internato. Ainda assim, podia tê-la prevenido para que o agasalhasse bem quando o deita. Logo vou levá-lo ao médico. Só espero fazer dinheiro que chegue para pagar a consulta e os remédios, porque aquela tosse e aquela febre não vão lá com aspirinas. Não posso dar-me ao luxo de perder a única riqueza que me sobra e a única recordação da vida feliz com o meu querido Jorge, que o Deus o tenha em eterno descanso.
Agora estou para aqui com este cabrão a bufar em cima de mim e a perguntar-me se estou a gostar. Estes gajos irão algum dia perceber que não me meti nesta merda para gostar, para ter prazer, que estou a levar com ele só por dinheiro? É o que me apetece dizer-lhe, mas o melhor é controlar-me porque é sempre útil ganhar clientes e este gajo é novo por cá. E, assim como assim, nem é dos piores. Teve o cuidado de lavar-se antes de vir par aqui. Alguns cheiram que tolhem, nem sei como consigo aguentá-los. O velho que aviei há bocado era um nojo! O cabrão queria beijinhos e já não bastava aquela merda nunca mais levantar, o que obriga a prolongar o sacrifício, e ainda por cima cheirava a peixe podre, o que não é de estranhar tanta era a camada branca em volta da cabeça da gaita, aquela mistura de esporra com mijo que quase me fez vomitar. Este só é pena ser chato: estás a gostar? É bom? Não há paciência, se querem mimos que arranjem mulher fixa. Puta que os pariu!
E por falar em mimos, eu é que já não os tenho há mais de dois anos. Desde que o meu Jorge caiu da prancha da obra que não voltei a receber amor e a retribuí-lo. A verdade é que não tornei a procurá-lo nem o vou fazer. Nem procurei isso nem mais nada, vou andando pelo mundo, errando sem esperança na lama mais funda e porca que se possa imaginar. Detesto-me. Se não fosse o pequerrucho, matava-me. Mas que havia de ser do miúdo sem pai e sem mãe? É só por ele que me deito com três ou quatro homens por dia. Ninguém imagina o tormento desta vida. Há quem julgue que é boa de levar, mas se experimentassem percebiam que pior é impossível. Só quem já passou por isto pode descrever o que é dar a nossa intimidade, o que é mais nosso e que devíamos guardar para quem amamos, a qualquer um que apareça com dinheiro para pagar.
Finalmente acabou. Os trinta euros que pagou devem ser suficientes para o médico. Vou lavar-me bem e pôr mais um bocado de perfume, ainda preciso de mais duas ou três subidas ao quarto para juntar dinheiro para os medicamentos, para a alimentação e para juntar para a renda de casa. Vá lá que esta pensão é asseada, temos sempre água corrente no bidé, só é pena ser gelada. As mais velhas costumam contar histórias de arrepiar, do tempo em que o bidé era enchido de manhã e a água só era mudada no dia seguinte. A higiene é muito importante com as doenças que andam por aí. E as moças mais novas facilitam muito, precisam de dinheiro para a droga e aceitam sem preservativo só para ganharem mais uns trocos. Coitadas das mulheres destes gajos, muitas devem já ter apanhado sida sem saber, devido à porcaria dos homens que têm.
Com o meu Jorge nunca corri riscos nenhuns, era uma paz de alma, sempre pronto a dar-me carinhos. Trabalhava para mim e para o menino, não tinha vícios. Era tão diferente dos outros que andavam com ele nas obras, uns grosseirões, sempre bêbedos. O meu não era assim, mesmo se bebesse um copito a mais em dias de festa continuava meiguinho. Nunca me pôs as mãos para bater-me. Com o bebé era igual. Se não fosse aquele acidente estúpido, éramos uma família tão feliz... O que eu ganhava na fábrica mais o do meu homem haveria de chegar para que o Eduardinho pudesse estudar e ser alguém. O nosso sonho era fazer do puto doutor. Aliás, é para isso que ando nesta vida. Vou esforçar-me, mas o Eduardo há-de orgulhar-se da mãe que tem. É claro que não pode saber no que trabalho.
- Vamos lá, cavalheiro! Tem é de ser com camisinha, está bem?
Por hoje está feito. Vou direitinha buscar o pequenino.
Quarenta euros já marcharam e ainda falta comprar os remédios, mas ao menos já não estou em cuidados. O doutor disse que a maleita é normal e vai deixar o Eduardito em paz num instante. Deus o ouça!
Os médicos merecem bem a massa que metem ao bolso. Ainda há três dias o puto estava cheio de febre e hoje já deve andar a brincar com os outros garotos da dona Aurora. Assim até custa menos esta vida.
Só conheço uma moça que gosta desta nojeira. É a Amélia. Aquilo é um fogareiro tremendo, sempre a arder de vontade. Não é por acaso que ficou conhecida no meio como “A Ardida”. Desconfio que às vezes nem recebe pelos serviços. Se os homens soubessem do que a casa gasta, com meia dúzia de lérias, ainda conseguiam que fosse ela a pagar. A Amélia começou na vida já lá vão mais de vinte anos, tinha dezassete. Cedo começou a sentir comichões difíceis de resolver sozinha e acabou por engravidar de um vizinho casado. O pai dela pô-la logo fora de casa e o pai do filho que carregava na barriga negou a paternidade. Ainda uma criança, viu-se sozinha, sem trabalho e mãe. A rua foi o destino lógico e, nos tempos da força da juventude, era muito procurada e conhecida pela entrega com que despachava a rapaziada. Ainda por cima sempre esteve disponível para experimentar as coisas mais esquisitas: bater nos homens, mijar-lhes em cima, eu sei lá...
A Amélia começa a ficar gasta, porque a vida não perdoa e esta ainda menos. Faço ideia como seria quando nova. Noutro país era artista de cinema, de certeza. Aqui, é puta. E às putas portuguesas restam poucas hipóteses: a rua, os bares de alterne ou as casas de massagem, como agora chama às casas de passe. Isto para as putas que assumem o que são, porque há aí muita senhora fina que não é menos galdéria do que eu, pelo contrário. Se eu vou para a cama com tantos homens, é por necessidade. Muitas senhorecas vão por prazer e em troca de presentes caros. Há por aí muito corno sem saber e até alguns que são mansos: sabem, mas não fazem ondas para não arranjar problemas e para terem todos os dias cama, mesa e roupa lavada. Isto é um mundo de hipócritas!
A prostituição de rua é a mais dura, mas eu, tendo de vender o pito, não faço de outra maneira. Aqui os lucros são todos meus, não há percentagens para ninguém e atacar na cidade acaba por não ser tão perigoso como isso. O maior risco é ser vista por vizinhos e conhecidos. Nos bares tinha de trabalhar de noite e isso não quero, porque gosto de dormir agarradinha ao meu pequenino, dar-lhe beijinhos até ele adormecer e, depois, vê-lo ali tão inocente e bonito, com os olhitos fechados. Ninguém imagina o prazer que sinto ao passar-lhe as mãos, ao de leve, pela cara e ao sentir-lhe a pele e a carninha tão macias...
- Faço os três pratos, filho. Cada um tem o seu preço e a ementa completa fica-te por 65 euros, bonitão!
Quando me meti nisto tinha a intenção de fazer só o normal, mas cedo percebi que dessa forma não ia a sítio nenhum. A maioria destes gajos quer é as outras brincadeiras, as que não têm coragem de pedir às mulheres e que estas, às tantas, têm de fazer com outros. O meu Jorge só nunca me foi por trás, mas com a boca fizemos maravilhas um ao outro. A primeira vez que experimentei no cu foi com um filho da puta que tinha a gaita que mais parecia a tromba de um elefante. Aquela merda nunca mais parava de entrar e era grossa, fiquei toda rebentada. Agora, já me habituei. A única dor é de alma: não consigo acostumar-me à ideia de pôr à disposição destes porcos o que o meu homem nunca usou. Um senhor vem ter comigo todas as semanas e não quer outra coisa. É muito gentil, trabalha num banco aqui perto, e ao que parece não faz isto com mais ninguém. Contou-me que a mulher não gosta, porque doeu-lhe muito nas duas vezes que tentou e, das mulheres da vida, só me quer a mim, porque sou muito limpinha.
Apesar de tudo, os clientes que me pedem os três pratos de uma vez são os únicos que me permitem algum prazer. Um prazer apenas físico, já que as dores de alma são tantas que nada há-de realizar-me nesta vida. Mas, como são coisas mais demoradas, acabo quase sempre por me vir. Começo por entusiasmá-los com a boca, depois vamos para o normal e acabamos com o chouriço enfiado no ferrolho. É cansativo, mas quando decidi seguir este caminho de senhoria do meu corpo, colocando-o à disposição de quem quiser alugá-lo, já tinha noção do que me esperava. Afinal de contas, esfolar cabritos foi uma opção consciente, em nome de um objectivo claro: dar uma vida melhor ao meu filhote.
A recuperação do Eduardinho deve ser a responsável pela minha boa disposição que me faz estar a gostar desta queca, o moço também parece satisfeito, geme como um gato com cio... Isto é que vai para aqui um berreiro, que Deus me perdoe! Estou a ficar fresca, estou... Eu não era assim, não transmitia qualquer calor nas relações profissionais. Aliás, quando me lembro da primeira vez na rua até parece que um raio me desce pela coluna e faz-me estremecer toda. Foi horrível, deitada de costas, ali por baixo de um sujeito com um cheiro nojento a álcool. Ainda por cima era bruto, um bicho autêntico, fartou-se de apertar-me as mamas com uma força estúpida. Mas o pior de tudo era a lembrança do Jorge. Estava ali a conspurcar-me com um monstro e tinha em mim a imagem do meu anjo amado sem sair da memória. Senti-me suja, traidora. Percebi que, depois daquilo, nada mais que fizesse poderia lavar-me o corpo e a alma. Quando o gajo se levantou e começou a vestir-se, continuei estatelada com pernas abertas e tentando impedir com as mãos que as lágrimas me encharcassem a pintura. O tipo assustou-se com aquilo, deixou-me o dinheiro na mesinha de cabeceira e desatou a correr porta fora.
O corpo e a alma a tudo se acostumam. Quer dizer, essa não é a palavra certa. Resignada, é isso, o que estou é resignada. Deixei de acreditar numa vida melhor para mim e tudo o que quer é dar uma vida melhor ao Eduardinho. Para isso, faço o que for preciso sem enganar ninguém. A minha seriedade é sagrada. Posso ser puta, mas sou honrada. Se não fosse, fazia como algumas que andam por cá, que mal apanham um homem mais distraído tratam logo de meter-lhe a mão à carteira. A Micaela até foi presa.
- A tua cara não me é estranha, mas tens de compreender que a gente está com tantos homens que não é fácil recordarmo-nos imediatamente de todos. Mas esta conversa vai ter uma virtude, nunca mais me esquecerei de ti. Vieste só para me perguntar se te conhecia ou queres dar uma voltinha?
Já sei quem ele é, nem poderia ser outro, é o que tem a panca de falar enquanto descarrega a tusa. “É bom?”, “Estás a gostar?”. Até o jeito com que fez a aproximação mostra que ele aprecia muito o falatório. Não fosse eu compreender que isso se deve a muitas carências afectivas e cobrava-lhe mais. Esta merda da conversa só serve para empatar e tempo é dinheiro e é pelo carcanhol que ando nisto.
- Já te disse que não quero beijos nem beijinhos. Não somos casados nem namorados. Isto aqui é para foder. Entendido? Faz lá o que tens a fazer e deixa-te de fosquices.
Só me faltava esta! Ele tem mas é pinta de tarado. Chega com falinhas mansas e em menos de nada já está a enrolar-me a corda ao pescoço ou a rasgar-me o ventre com uma faca. Vou mas é ter cuidado, antes que o gajo me foda a vida. Ele anda a rondar-me, tenho de ter cuidado. Ainda há três dias cá esteve e hoje voltou, deve é estar a montar-me o cerco. Além disso, não beijo os clientes. Os beijos são uma forma superior de afecto que só dou ao Eduardinho, o sucessor do meu Jorge. Estes daqui não levam nada. Os beijos não se dão nem se vendem, fogem-nos da boca para aqueles que mais gostamos.
Não posso acreditar que o homem está falando a sério: diz que quer tirar-me desta vida, que sou diferente das outras, jura notar em mim um olhar diferente, uma vontade de largar isto tudo e ter uma vida em família. Promete casar comigo e o pior é que me parece sincero, até se ajoelhou à minha frente, implorando por uma oportunidade. O homem está louco, não será um psicopata mas não é nada saudável.
Vá lá, consegui convencê-lo a ir-se embora. A porra é que prometi dar-lhe uma resposta amanhã, ao princípio da tarde. Bem vistas as coisas, até não era mau para mim e para o rapaz, um pai há-de fazer-lhe falta e este tipo parece ser bem intencionado. O tempo que levo na vida é suficiente para conhecê-los, aqueles que querem chular-nos topam-se a léguas. Este coitado é um mal-amado desesperado de solidão e engraçou-se por mim. Podia ser-me útil para os pequenos arranjos lá de casa, para jogar à bola com o Eduardinho... para tirar-me deste esterco de vida. Mesmo o Jorge não se importaria, sempre é melhor dormir com um do que com muitos. A traição, ao cabo e ao resto, acaba por não ser tão grande e é mais honroso para o nosso filho.
- Fiquei bastante sensibilizada com a sua proposta, estou crente que o senhor é uma pessoa séria e bem intencionada. Eu só tenho a ganhar se aceitar ficar consigo, o meu filho – não sei se já lhe falara dele – a mesma coisa. Mas sou uma mulher de princípios, se lhe dissesse sim iria enganá-lo até ao fim dos seus dias, porque não sinto nada por si. O nosso juntar de trapinhos não passaria de uma manobra de conveniência da minha parte. Espero que me desculpe.

Terça-feira, Maio 23, 2006

Final Feliz

Tiago já decidira: a partir daquele dia não mais seria apontado na rua, acusado de maluco e de paneleiro.
A vida nas aldeias é complicada para quem, como Tiago, foge à norma. Na verdade, ele não era homossexual, mas não alinhava com a maioria dos homens da terra em bebedeiras e em visitas às meninas, na vila, tão pouco apreciava futebol e não partilhava o gosto pela sueca e pela malha nas traseiras da sede do rancho folclórico. Como se fosse pouco, era o único macho da aldeia a frequentar a Universidade, para cúmulo, cursava Filosofia, uma verdadeira paneleirice, como diziam os seus colegas da escola primária, agora todos eles bem integrados na sociedade local: casados, com filhos e com trabalhos de homem.
O aspecto de Tiago também não era o mais convencional e contribuía para a chacota de que era alvo. Cabelo comprido e desalinhado, barba por fazer, roupas escuras, coladas ao corpo e velhas. Andar de mota pela aldeola sem capacete e a lançar piropos às raparigas nunca lhe passou pela cabeça. Não ia à missa e não trocava mais do que um bom dia com os vizinhos. Dizia-se que andava metido na droga. Como não cumpliciava nas alarvidades másculas, os homens rotularam-no de paneleiro e desprezavam-no. Porque não cuidava da imagem e recusava-se a encarreirar na domingueira procissão em direcção à missa, era malquisto pelo mulherio.
- Credo, cruzes, se a minha filha se quisesse casar com uma coisa daquelas era o maior desgosto da minha vida, ouvia-se em jeito de conclusão das elevadas cogitações colectivas, mantidas pelas donas de casa na mercearia da dona Gertrudes.
A intolerância pelos diferentes ainda recentemente fizera uma vítima mortal na aldeia. Sónia, a única amiga Tiago no lugarejo, não resistiu à maledicência e acabou por suicidar-se. Sónia também frequentava a Universidade e era companhia de viagem de Tiago nas deslocações entre a aldeia e o Porto.
Se Tiago é espezinhado pelos conterrâneos, tem ainda assim um factor a atenuar a repulsa: é homem. O povo, na sua animalesca sanha de cortar na casaca alheia, é particularmente cruel com as mulheres e, por estranho que se julgue, são as próprias mulheres as mais implacáveis com as suas semelhantes.
Sónia tinha contra ela o não se ter acomodado à condição tradicional de fêmea da aldeia. Ser mulher, dizem os usos e os costumes locais, é o mesmo que casar pouco depois dos vinte anos e cuidar do marido, dos filhos e da casa. Sónia nunca aceitou ser assim. Do mesmo modo que nunca encarou com bons olhos os piropos dos rapazes que grunhiam na direcção dela frases feitas, como «Isso é tudo teu?» ou «Fazia-te um filho». Achava-os execráveis. A sua decisão de ir para a faculdade deixou chocada metade da aldeia. Aliás, só teve o apoio da mãe e do Tiago, o único rapaz de entre os vizinhos com quem gostava de falar. A reputação de Sónia caiu ainda mais no dia em que confessou aos pais ser lésbica, fazendo menção de levar a namorada à aldeia no fim-de-semana seguinte.
A mãe, meio atordoada, acabou por aceitar a realidade tal como ela se apresentou. Mas o pai, o pintor de obras Joaquim Manuel, jamais lhe perdoou. Mal ouviu as explicações da filha, tirou o cinto das calças e preparava-se para tentar tirar à pancada o demónio – assim definiu o caso – do corpo de Sónia. Só a mulher livrou a jovem do castigo. Ainda desaustinado, Joaquim Manuel saiu de casa e foi enfiar-se no tasco, contando a história aos amigos. Suplicou-lhes que não olhassem de lado, argumentando que continuava o mesmo homem de sempre, a filha é que ficara maluca:
- Deve ser por andar tanto com aquele paneleiro de cabelo comprido, balbuciou.
Joaquim Manuel foi imediatamente desculpabilizado e beberam todos mais uma rodada em homenagem à integridade do pintor. Já a sua mulher tornou-se, aos olhos da população, a principal cúmplice dos disparates da filha. Afinal, foi a dona Amélia quem apoiou a intenção da rapariga de ir para a faculdade, onde só se aprendem coisas dessas, comentava-se na mercearia. Houve mesmo quem fosse contar o sucedido ao padre Carneiro, perguntando-lhe se não haveria possibilidade de excomungar Sónia através de um decreto passado pelo bispo, não fosse a aldeia, no seu conjunto, ficar mal vista por Deus e serem todos os seus habitantes castigados na hora do juízo final. O padre acalmou os ânimos das beatas. Reconheceu-lhes motivos para a indignação, mas recordou-lhes a infinita justiça do Senhor.
A partir daquela altura, nunca mais Sónia teve descanso no regresso a casa aos fins-de-semana. Quando atravessava o centro da aldeia, o largo defronte da igreja, era invectivada por todos: «Lá vai a lambe-conas!», «É o Diabo em figura de gente!», «Fressureira de merda!»... Nem em noite estava em paz. Uma vez, um grupo de rapazes aproximou-se da janela do quarto de Sónia e não parou de entoar uma quadra a ela dedicada: «Tem a mania que é importante/gosta que lhe lambam a rata/se um dia provar o meu malho gigante/nunca mais me larga a chibata».
Há dois meses, não aguentando a pressão local e a angústia pelo fim da relação com Fabiana, resolveu vingar-se da população toda. Durante uma madrugada de sábado para domingo, aproveitando o facto de as ruas estarem desertas, deslocou-se para o adro da igreja e engoliu um frasco de herbicida. Na manhã seguinte, foi uma histeria pegada. As beatas mais madrugadoras ficaram geladas de remorsos ao verem o corpo da rapariga imóvel e frio à frente do templo. Algumas ainda não recuperaram do sentimento de culpa e limitam-se a rezar o mais que podem, pedindo perdão a Deus, directamente ou por intermédio dos bons ofícios do padre Carneiro. Há, no entanto, muitas que não verteram uma lágrima. Atribuem o desenlace ao Diabo instalado no corpo de Sónia.
Tiago nunca se recompôs do choque, agudizando-se o seu natural estado depressivo. Ele era apaixonado por Sónia desde a adolescência, ainda que o não tivesse confessado a alguém que não fosse a própria amiga. Por amor a Sónia, nunca se entregara a nenhuma das colegas de faculdade que se interessaram por ele. No máximo, após noites de álcool e haxixe, acordara com uma rapariga ao lado, tentando afastar-se nos dias seguintes para vincar que havia sido uma vez sem exemplo e para não alimentar falsas esperanças.
Desde o desfecho da vida de Sónia que Tiago andava mais meditabundo, arquitectando formas de livrar-se da tristeza em que se via enredado. Vieram-lhe muitos planos à cabeça, mas, por uma razão ou outra, não aproveitara qualquer deles. Até que um dia decifrou a chave do enigma que o atormentava. O dia dos namorados sempre o enfastiara, mas desta vez estava apostado em torná-lo memorável. Na noite de 13 para 14 de Fevereiro saiu de casa com a mente presa a um único objectivo: adorar convenientemente a memória da amada.
Com um saco na mão, dirigiu-se para o cemitério onde o cadáver de Sónia, aconchegado pela morte, repousava após a rapariga ter decidido cortar rente o suplício que fora a vida. A noite estava gélida e o céu apresentava-se coberto de nuvens, de tal modo carregadas que davam a impressão de poder desabar, inteiras, sobre quem se atrevesse a desafiar aquela noite invernosa. De tão escuras, as nuvens tornavam o céu vermelho-vivo, quase vermelho-sangue.
Quando Tiago saltou a vedação e entrou no cemitério viu-se tomado pelo pavor, adensado pelo forte vento que se levantou e que assobiava no silêncio nocturno. Era como que um grito, que, em dados instantes, parecia-lhe assumir o timbre da voz de Sónia. À medida que caminhava para a sepultura da rapariga, Tiago sentia as nuvens cada vez mais rubras e mais perto de lhe caírem em cima. O zunido do vento era crescente, como uma sinfonia que vai ganhando corpo à medida que se aproxima do epílogo. De repente, as lamparinas que ornavam as campas começaram a voar. As mais comuns, com uma protecção de plástico encarnado, flutuavam no ar, suspensas e sempre acesas, num arrebatador bailado. Não tardou a que as flores se desprendessem dos jarros para também serem lançadas na atmosfera. O mais estranho é que tudo isto ocorria apenas na área delimitada pelo perímetro do cemitério, iluminando o céu naquele espaço restrito.
Chegado à sepultura de Sónia, Tiago não disfarçava o nervosismo que o invadira. Abriu o saco que trazia o mais depressa que pôde e dele retirou treze velas vermelhas – a vela do amor, garantiram-lhe na loja mística onde as adquiriu. Colocou-as sobre o mármore branco da campa e acendeu-as. De seguida, leu a ladainha impressa no papelinho que acompanhava cada um dos falos de cera. A meio da reza, o céu vibrou num gutural ronco que fez estremecer o solo e deu novo impulso elevatório às lamparinas e às flores esvoaçantes. No fim da leitura, mais um estrondo celestial provocou um enorme clarão, resultante do abrupto crescimento da chama de todas as velas acesas por Tiago. Segundos depois, como que derretendo devido ao calor produzido pela imensa chama que teimava em crescer sem parar, o corpo de Tiago principiou a desintegrar-se, jazendo logo a seguir numa informe e espessa mancha escura, numa poça de um fluído indeterminado pela ciência.
Numa incessante sucessão de acontecimentos, da sepultura de Sónia começou a sair uma alvar luz que, à medida que emergia da lápide, ganhava contornos de gata branca e estendia as garras para o centro da poça onde permanecia, em fluído, Tiago. O contacto com a alva sombra fez com que o visco começasse a fervilhar e dele se criasse uma nova forma. Não foi o mesmo Tiago que ganhou corpo, foi um enorme urso castanho de peluche, exactamente igual àqueles que se vendem nas lojas de bugigangas para o dia dos namorados.
Logo que consolidado o peluche vivo e de tamanho real, a branca sombra felina iniciou o recuo para a campa, arrastando consigo o meigo urso. Mal imergiram para o fundo da cova, as lamparinas tombaram com estrondo e as flores, desfeitas, deslizaram pausadamente sobre o cemitério. Quando amainou esta borrasca metafísica, as nuvens desvendaram o segredo da sua vermelhidão: começou a chover torrencialmente em toda a aldeia; não era água que caía, mas pétalas de rosas vermelhas, humedecidas em sangue.